Menos tentativas, menos efeitos adversos e menos meses à procura da medicação certa: num campo marcado pela incerteza, esta promessa tem um enorme poder emocional.

A pergunta clinicamente importante, contudo, não é apenas se um teste consegue identificar diferenças genéticas. É se a utilização dessa informação melhora efetivamente o resultado do tratamento.

Um teste pode detetar uma interação gene–fármaco sem conseguir prever qual será o antidepressivo mais eficaz para aquela pessoa.

O que é a farmacogenómica?

A farmacogenómica estuda de que forma determinadas variantes genéticas podem influenciar a resposta do organismo aos medicamentos. Alguns genes estão associados a enzimas envolvidas na metabolização dos fármacos.

Uma pessoa pode metabolizar determinado medicamento mais lentamente, ficando exposta a concentrações mais elevadas, ou mais rapidamente, apresentando concentrações potencialmente insuficientes. Nos antidepressivos são frequentemente estudados genes como CYP2D6 e CYP2C19.

Esta informação pode ajudar a compreender alguns efeitos adversos ou a necessidade de ajustar uma dose. Não consegue, por si só, antecipar toda a resposta clínica.

Informação genética não é resultado clínico

Um ensaio clínico pragmático publicado em 2026 no JAMA Network Open avaliou se a prescrição de antidepressivos orientada pelo genótipo melhorava o controlo da depressão. A orientação genética não produziu uma melhoria significativa no resultado principal.

Isto não significa que a farmacogenómica seja inútil. Obriga-nos a distinguir duas perguntas:

A primeira resposta pode ser afirmativa sem que a segunda esteja demonstrada em todos os contextos.

Porque é que os genes não contam a história toda?

A resposta a um antidepressivo também depende do diagnóstico, perfil dos sintomas, gravidade, duração, condições médicas, interações medicamentosas, sono, álcool, saúde metabólica, adesão, acontecimentos de vida e acompanhamento clínico.

Muitos testes comerciais incluem genes cuja utilidade clínica é menos clara. Tabelas verdes, amarelas e vermelhas podem transmitir uma precisão superior àquela que a evidência permite.

Medicina personalizada não é medicina determinada pelos genes.

Quando pode acrescentar informação útil?

A farmacogenómica pode ser discutida perante efeitos adversos intensos ou inesperados, suspeita de metabolização atípica, múltiplas tentativas terapêuticas, polimedicação ou utilização de um medicamento com recomendações farmacogenéticas reconhecidas.

Mesmo nestas situações, o resultado deve ser interpretado por profissionais habilitados e integrado na história clínica. Não deve funcionar como um oráculo que escolhe automaticamente o medicamento.

A pergunta mais honesta

Em vez de perguntarmos “este teste vai dizer qual é o antidepressivo certo?”, devemos perguntar: “este teste pode acrescentar informação suficientemente útil para melhorar uma decisão clínica concreta?”.

A ciência continuará a evoluir. A combinação entre genética, biomarcadores, características clínicas e acompanhamento longitudinal poderá permitir decisões progressivamente mais precisas.

Personalizar verdadeiramente continua a significar olhar para a pessoa inteira — e não apenas para o seu ADN.

Uma decisão clínica precisa de contexto.

Na ZenMind integramos informação psicológica, biológica, relacional e de estilo de vida, articulando com o acompanhamento médico sempre que necessário.

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Este artigo é informativo e não substitui avaliação médica, psicológica ou farmacológica individual. Não altere medicação sem indicação do profissional prescritor.

Referências

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