Há pessoas que chegam à consulta com a ideia de que precisam apenas de aprender a controlar os pensamentos.

Tentaram respirar, distrair-se, racionalizar e repetir a si próprias que está tudo bem. Ainda assim, acordam com o coração acelerado, vivem cansadas e sentem o corpo permanentemente em alerta.

Nestas situações, talvez a pergunta não deva ser apenas “o que estás a pensar?”.

Talvez também seja necessário perguntar: como tens dormido, como te tens alimentado, como está a tua energia, se tens sentido alterações hormonais e há quanto tempo o teu organismo vive sob pressão?

Movimento, Alimento e Pensamento

Na ZenMind, estas três dimensões ajudam-nos a organizar uma leitura mais completa da ansiedade. Funcionam em conjunto e são portas de entrada para compreender como a pessoa está a viver.

Movimento não significa apenas exercício. Inclui a forma como o corpo alterna entre esforço e recuperação, a quantidade de tempo passado sentado, a capacidade de descansar e o modo como a atividade física influencia energia, sono e regulação.

Alimento não se reduz a uma lista do que se pode ou não comer. Inclui regularidade, disponibilidade de energia, relação com a comida, cafeína, possíveis défices e o contexto metabólico e hormonal de cada pessoa.

Pensamento inclui preocupações, interpretações e crenças, mas também história, memória, relações, exigência interna e o significado que a ansiedade assume na vida daquela pessoa.

Não pensamos sem um corpo. Não alimentamos apenas um corpo. E não nos movemos sem história, emoção e contexto.

A ansiedade não vive apenas na cabeça

A ansiedade é uma experiência psicológica e corporal. Pode envolver preocupação, antecipação e medo, mas também palpitações, tensão muscular, alterações digestivas, dificuldade em respirar, irritabilidade, cansaço e perturbações do sono.

Estas manifestações mostram que a ansiedade precisa de ser compreendida para além dos “pensamentos negativos”. O modo como o corpo está a funcionar também faz parte da experiência.

O cérebro recebe continuamente informação do corpo. Sono, disponibilidade de energia, hormonas, inflamação, medicação, estimulantes e estado geral de saúde podem influenciar a forma como nos sentimos. Ao mesmo tempo, stress, trauma e contexto relacional também alteram o funcionamento corporal.

Corpo e mente não competem pela explicação. Influenciam-se continuamente.

Quando o organismo está sob pressão

Uma noite mal dormida, longos períodos sem comer, refeições pouco adequadas às necessidades da pessoa, excesso de cafeína ou sobrecarga prolongada podem produzir tremor, palpitações, irritabilidade e dificuldade de concentração.

Estas sensações podem ser semelhantes às da ansiedade e aumentar a preocupação com aquilo que se sente. Compreender esta relação implica observar o corpo, os hábitos, a história e o contexto de cada pessoa, sem procurar uma explicação única.

Picos glicémicos e sensação de ansiedade

Depois de uma refeição rica em hidratos de carbono de absorção rápida, a glicose pode subir rapidamente e ser seguida por uma descida mais acentuada. Em algumas pessoas, esta oscilação pode acompanhar-se de tremores, palpitações, fome, fraqueza ou irritabilidade — sensações que podem ser vividas como ansiedade.

Por vezes, aquilo que parece apenas ansiedade pode incluir uma resposta fisiológica. E uma resposta fisiológica pode, por sua vez, aumentar o medo e a preocupação.

Uma sensação isolada não permite concluir que existiu um problema glicémico. Quando se repete depois das refeições ou após muitas horas sem comer, registar horários, alimentos e sintomas pode ajudar a reconhecer padrões. Na ZenMind, esta informação pode ser trabalhada em articulação entre a psicologia e a nutrição.

Leitura complementar

A Revolução da Glicose, de Jessie Inchauspé, é uma introdução acessível ao funcionamento da glicose. As estratégias apresentadas são gerais e devem ser adaptadas à saúde, à relação com a alimentação e às necessidades de cada pessoa.

Sono, energia e regularidade

O sono merece atenção porque dormir pouco, dormir mal ou ter um sono fragmentado pode deixar o organismo mais vulnerável à ansiedade e reduzir a capacidade de regulação emocional. Muitas vezes forma-se um ciclo: a ansiedade dificulta o sono e um sono insuficiente ou pouco reparador deixa o organismo mais reativo no dia seguinte.

O Apple Watch e outros relógios, pulseiras ou anéis inteligentes podem ajudar a observar a duração do sono, a regularidade dos horários e os despertares. Os resultados são estimativas: mostram tendências, mas não substituem uma avaliação clínica do sono.

Um dispositivo pode ajudar a reconhecer tendências. Não deve tornar-se uma nova fonte de vigilância ou ansiedade.

Se consultar os dados aumenta a preocupação ou faz com que a pessoa confie mais no relógio do que na forma como se sente, pode ser preferível reduzir a monitorização. A alimentação também merece ser observada de forma individualizada: importa perceber se existe regularidade e se há sintomas associados às refeições, a períodos longos sem comer ou ao consumo de estimulantes.

E a vitamina D, o magnésio e o folato?

A vitamina D, o magnésio e o folato participam em processos relevantes para o organismo e para o sistema nervoso. A alimentação, a exposição solar, a absorção, alguns medicamentos e determinadas fases da vida podem influenciar a sua disponibilidade.

Na consulta de nutrição, estes fatores podem ser considerados em conjunto com os hábitos alimentares e a história de saúde. Quando se pondera o folato, é importante ter também em conta a vitamina B12.

Avaliar não é o mesmo que suplementar. E suplementar não é o mesmo que tratar a causa.

Quando existe indicação para avaliação laboratorial ou suplementação, a decisão deve ser acompanhada pelo profissional habilitado e integrada num plano individualizado.

Hormonas e tiroide também podem entrar na conversa

Nas mulheres, as oscilações hormonais ao longo do ciclo menstrual e durante a transição para a menopausa podem influenciar o sono, a energia, a regulação emocional e a resposta ao stress. Observar quando os sintomas aparecem ajuda a compreender o padrão individual.

A tiroide participa na regulação do metabolismo, da energia e do sistema nervoso. Algumas alterações tiroideias podem produzir sensações semelhantes às da ansiedade; quando a história e os sintomas levantam essa possibilidade, a equipa pode recomendar avaliação médica.

E a história psicológica?

Olhar para o corpo não é afastar-nos da psicologia. A história também se expressa no organismo. Experiências de insegurança, trauma, exigência, relações difíceis, perdas ou anos de sobrecarga podem alterar a forma como uma pessoa antecipa o perigo, recupera do stress e se sente segura.

Na psicoterapia, procuramos compreender quando a ansiedade começou, em que contextos se intensifica, que lugar ocupa na vida da pessoa e de que forma influencia as suas escolhas, relações e capacidade de cuidar de si.

As ferramentas terapêuticas são escolhidas de acordo com a pessoa, as suas necessidades e a evidência disponível. O objetivo não é decidir se a ansiedade vem da mente ou do corpo. É compreender como pensamento, emoção, organismo, história e contexto se encontram naquela pessoa.

Compreender a pessoa como um todo

Uma avaliação integrativa procura ligar os sintomas à história, ao corpo e ao momento de vida. Algumas questões podem orientar esta compreensão:

Na ZenMind, psicologia e nutrição podem trabalhar de forma articulada, ligando Movimento, Alimento e Pensamento à história e às necessidades de cada pessoa. Quando é necessária avaliação médica, recomendamos o encaminhamento para o profissional adequado.

A ansiedade merece ser compreendida por inteiro.

Na ZenMind olhamos para pensamentos, emoções, corpo, história e contexto. Cuidar da saúde mental é compreender a pessoa para além do sintoma.

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Este artigo é informativo e não substitui uma avaliação psicológica, nutricional ou médica individualizada. Em caso de emergência ou risco imediato, contacte o 112.

Referências

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